
Eu sonhei com uma pessoa muito especial para mim. Especial de alguma forma que eu não posso compreender, quanto mais tentar explicar. No entanto, ela estava distante, do outro lado de uma bela campina verdejante. Eu conseguia distinguir apenas um vulto, apenas uma silhueta distante e nada mais. Não pude ver seu sorriso, seu olhar, nem ao menos sentir seu perfume. Ela estava quase ao alcance dos meus olhos, mas totalmente distante de minhas mãos e de meus braços. E isso, por melhor que fosse, ainda era pouco. Talvez fosse o suficiente naquele momento, porém não era o que eu queria, ou o que precisava. Em um outro dia qualquer, sonhei com essa pessoa de novo. Dessa vez, eu pude sentir seu perfume, mas não consegui vê-la. Às vezes enxergamos melhor quando fechamos os olhos. Foi assim que a admirei naquele momento. Para meu contentamento, ela estava mais próxima. Ainda não estava ao alcance de minhas mãos, mas eu podia sentir, vagamente, o calor que emanava de seu corpo. Novamente, sonhei com aquela pessoa. Dessa vez, contudo, foi um pouco diferente. Sonhei que estava numa pequena casa de madeira, cujas janelas eram grandes, com vidros coloridos e várias flores no parapeito. Os cômodos eram pequenos e os sofás estofados tinham almofadas coloridas que não combinavam. Ali pairava o cheiro de verniz, de campo e de saudade. Comecei minha busca no sótão, mas lá só havia bichinhos de pelúcia antigos e fotografias cujos rostos não me recordo mais. Passei pelos quartos, me detendo brevemente na escrivaninha ao lado da janela. Havia uma foto de uma bela noite de luar que me fizera sorrir. Procurei na casa inteira, mas não a encontrei. Eu estava sentada, e eu sabia que ao meu lado estava aquela pessoa. Estávamos lado a lado, olhando aquele belo campo verdejante. E ela estava me perguntando sobre meus parentes, meus amigos, as pessoas especiais e queridas por mim, aquelas que eu não gostava ou que achava que não gostavam de mim. Pediu para eu falar, um pouquinho de cada, sem me interromper, a não ser ocasionalmente para perguntar alguma informação que eu esquecera de mencionar, ou que não mencionara propositadamente. E, para minha surpresa, a maioria das perguntas eu soube responder. Ou talvez a surpresa realmente tenha sido não conseguir responder três perguntas. Apenas três. Das três pessoas mais importantes para mim. Aparentemente, quanto mais especial é alguém para você, mais dificuldade você tem de explicar isso. Era outro dia, mas ainda estávamos sentados lado a lado. Dessa vez, as perguntas eram diferentes, um pouco mais complexas e que exigiam certa reflexão para responder. As cores que eu gostava, comidas, livros. Incontáveis livros. Músicas, cheiros, perfumes. Se eu gostava mais de dias cinzentos, chuvosos, ensolarados ou amenos. Perguntou-me o que era vida, o que era morte. O que era amor, amizade, confiança. E, para todas essas perguntas, eu pedi tempo e paciência. São coisas que ainda não entendo, mas que estou aprendendo lentamente. Perguntou-me também de meus sonhos, minhas vontades, daquilo que eu queria realizar e daquilo que eu tinha medo que acontecesse. Foi uma longa conversa. Mais um dia se foi, e estávamos conversando sobre outros assuntos. As pessoas eram as mesmas, o campo permanecia igual, o clima era constante mas eu sentia que em algum lugar, seja dentro ou fora de mim, algo estava diferente. Em determinado momento, sei que não pude segurar o choro. A partir daí entendi que eu não precisava de palavras. Certas vezes elas não são fiéis ao que você quer dizer. São poucas, bem poucas, ocasiões que as lágrimas são mais diretas, sinceras e, apesar de tudo, doces. Chorei por muito tempo, e, mesmo incomodada com o silêncio daquela pessoa, não consegui evitar. Quando finalmente eu estava conseguindo parar de chorar, ouvi sua voz, bem mais distintamente que qualquer das outras vezes. Aquela pessoa especial, que eu passei tanto tempo procurando e buscando exaustivamente, quando olhei para o lado, não havia ninguém ali. Ela não estava ali. Por um segundo, senti o silêncio ressoando na campina e em meus pensamentos. Depois, num momento epifânico como poucos que temos durante a vida inteira, eu entendi. A pessoa especial que eu tanto buscava não era um amor, não era um amigo. Era alguém que deveria estar sempre perto de mim, me entender, apoiar e dar bronca quando necessário. Alguém que estivesse ali, apesar das lágrimas e das piadas infames. Alguém que pudesse entender meu silêncio melhor do que minhas palavras, e que analisasse meu olhar mais profundamente que meus textos. Alguém que sorrisse comigo, que desse risada e que cantasse, ainda que sem mover os lábios ou produzir algum som. A pessoa especial que eu tanto buscava, na verdade, era eu mesma. E, finalmente, acabei encontrando-a, aqui, dentro de mim.
Escrito por Kah às 23h33
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Existe uma pessoa realmente especial para mim. Algo bem bobo, bem incoerente. E, durante muito tempo, ela serviu como luz para mim; tanto a luz ofuscante, abrasadora e que acolhe do sol, como aquela bem discreta e tênue que emana da lua. O meu dia não se baseava naquela pessoa - seria ridículo e nada saudável se assim o fosse; mas ele certamente estaria perdido se não fosse por ela. Era algo natural, tanto quanto acordar e escovar os dentes, desejar bom dia para ela, ou mesmo boa noite e bons sonhos. Conversávamos sobre tudo: músicas, livros, filmes, fatos corriqueiros do cotidiano, receitas de culinária e até mesmo sobre outras culturas. Nada muito profundo, muito filosófico. Nada muito superficial, muito frívolo. Não sei dizer como esse tipo de relação surgiu. Começou de um modo inconseqüente, quase que inacreditável; afinal, não são muitas pessoas que dão continuidade a uma conversa onde ambas as partes, aparentemente, não têm nenhum interesse em comum. E, como esperado, aparências enganam. Embora seja relevante acrescentar que muitas das coisas que ela me contava, e não em poucas vezes, não me interessavam absolutamente nada pelo tópico em si. Mas como ela que me contava, então era interessante. Peguei-me certa vez ouvindo sobre a biografia de Einstein. Claro, conheço ele, mas para mim nunca seria mais do que a figura de um moço descabelado e uma fórmula de física se não fosse por essa pessoa especial. Foram pequenas coisas, bem pequenas. Mas elas mudaram a forma como eu vejo as outras pequenas coisas.
Agora me pego sentindo falta de tudo isso. Principalmente do sorriso daquela pessoa, do timbre suave e da calma que transparecia em sua voz. Não, não é algo que eu tenha perdido. Guardo, cuidadosa e carinhosamente, em meu peito e minhas lembranças. Mas, ah, se lembranças fossem suficientes, eu não estaria com essa saudade que tanto dói e aquece. Essa saudade interminável que começou, disfarçadamente, no dia em que a conheci.
Escrito por Kah às 04h40
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